
Relatório do Barulho: A Granja Viana em defesa do sossego.
23/07/26, 12:00
Apoiado pela AMOGV, nasceu o movimento que os próprios moradores, com uma dose de ironia e muita determinação, batizaram de "Grupo do Barulho".

Quem escolhe viver na Granja Viana busca, antes de tudo, qualidade de vida, contato com a natureza e tranquilidade. Mas para centenas de moradores do bairro, essa promessa virou um pesadelo recorrente. O silêncio virou exceção em noites marcadas por som amplificado, gritaria, caixas de som viradas para a rua e vibrações estruturais que invadem as salas e quartos de quem só quer descansar.
Diante do esgotamento e da sensação de impotência, a comunidade granjeira fez o que sabe fazer de melhor: se uniu e se organizou.
Apoiado pela AMOGV (Associação de Amigos e Moradores da Granja Viana), nasceu o movimento que os próprios moradores, com uma dose de ironia e muita determinação, batizaram de "Grupo do Barulho".
O objetivo é claro: fazer barulho pelas vias legais, técnicas e institucionais para exigir o cumprimento da lei e devolver a paz aos lares da nossa comunidade.
A Força dos Dados: O Relatório Técnico-Jurídico Comunitário
Para transformar relatos isolados em um documento de força probatória, o movimento realizou, entre fevereiro e março de 2026, um extenso levantamento espontâneo com os moradores da Granja Viana (Cotia/SP).
O resultado foi sistematizado em um rigoroso Relatório Técnico-Jurídico Comunitário, consolidando 86 respostas válidas que retratam um quadro persistente e estrutural de poluição sonora. E os números provam que o problema vai muito além de um mero "conflito de vizinhança":
Um problema crônico: 86% dos participantes convivem com o barulho excessivo há mais de 1 ano, e 59,3% sofrem com essa realidade há mais de 2 anos.
Noites em claro: A esmagadora maioria aponta o período noturno (especialmente após as 22h, madrugadas e finais de semana) como o horário mais crítico, destruindo a rotina de sono e o bem-estar.
Saturação Acústica: 74,3% dos moradores são impactados por duas ou mais fontes de ruído simultâneas ou alternadas. Formou-se um verdadeiro "ruído de fundo" permanente no bairro.
O som vai longe: 61,6% dos afetados estão a até 300 metros das fontes emissoras, e incríveis 38,4% afirmam perceber o incômodo a distâncias superiores a 300 metros – o equivalente a 40 campos de futebol!
Os Mais Vulneráveis na Linha de Frente
A poluição sonora urbana é reconhecida como grave infração ambiental e sanitária, capaz de provocar hipertensão, distúrbios cognitivos, insônia crônica e ansiedade. O relatório mapeou pelo menos 380 moradores diretamente afetados, expondo uma realidade alarmante:
Idosos em risco: Pelo menos 179 idosos convivem com o problema. Em 80,2% das residências afetadas há pelo menos uma pessoa idosa sofrendo com a falta de descanso, atraindo a incidência dos princípios protetivos do Estatuto da Pessoa Idosa.
Crianças e Adolescentes: São mais de 110 crianças menores de 14 anos impactadas, tendo seu desenvolvimento neurocognitivo, rendimento escolar e repouso violados, em desrespeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Além do barulho em si, 37,2% dos moradores relatam vibrações estruturais (trepidação de janelas e paredes provocadas por graves e subgraves de alta potência) e sofrem com os "impactos agregados": tráfego intenso na madrugada, som automotivo e aglomerações nas ruas residenciais.
De Onde Vem o Barulho?
O levantamento apontou uma concentração majoritária em atividades comerciais, de entretenimento e eventos em áreas predominantemente residenciais (ZER), com forte incidência no eixo da Rua José Félix de Oliveira e Av. Dona Cherubina Viana.
Entre os estabelecimentos e fontes mais citados pelos moradores estão o Quintal da Granja (29 menções), Camarote 7 (15 menções), O Posto (14 menções), além de escolas, espaços de eventos, churrascarias, quadras de beach tênis e casas alugadas para festas privadas temporárias.
Relatos de profissionais e músicos que atuam na região revelam uma causa estrutural grave: a quase total ausência de isolamento acústico adequado nos estabelecimentos que promovem shows e apresentações ao vivo ou em áreas abertas, descumprindo diretamente o Código de Posturas de Cotia e as Leis Municipais nº 1151/2001 e LC 303/2020.
Desgaste com a Fiscalização e a Resposta do Ministério Público
Mais da metade dos moradores (54,7%) já acionou a Polícia Militar ou a Guarda Civil Municipal (GCM). Outros 59,3% formalizaram reclamações administrativas. No entanto, o sentimento geral é de impotência. Expressões como "desisti porque não funciona", "nada foi feito" e "perdi as contas" são comuns. Moradores relatam que os mesmos estabelecimentos são alvo de dezenas de chamados no mesmo final de semana, sem que haja um sistema integrado de reincidência ou providências efetivas da Prefeitura. Mas esse cenário começou a mudar.
A gravidade do problema chamou a atenção do Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP). Em um parecer técnico contundente (Parecer nº 16293941), o Centro de Apoio Operacional à Execução (CAEx) do MPSP analisou os relatórios de medição de ruído da Secretaria Municipal de Segurança Pública de Cotia e concluiu que nenhum deles seguia a metodologia da norma ABNT NBR 10.151:2019!
O MP apontou irregularidades graves nas medições municipais (tempo insuficiente de aferição, falta de medição do ruído residual e até conclusões contrárias aos próprios dados brutos). Diante disso, a Promotoria de Justiça determinou que a Prefeitura adeque imediatamente seus métodos e equipamentos às normas técnicas oficiais para as novas fiscalizações.
União, Diálogo e Ação: O Encontro no Clube Pitangueiras
A força do movimento ficou evidente em sua primeira reunião presencial, realizada no Clube Pitangueiras. Convocada por associados da AMOGV, a mobilização surpreendeu pela casa cheia, reunindo moradores de vários pontos do bairro, além de representantes da Guarda Civil Municipal (como o 1º Tenente J. Alves e o Inspetor Romano), enviados a pedido do secretário de Segurança de Cotia para abrir diálogo e buscar soluções conjuntas.
A mensagem do "Grupo do Barulho" é simples e amparada pelo Código Civil, pela Lei do Silêncio e pela Constituição Federal: o direito de um termina onde começa o do outro. Ninguém é contra o comércio ou o entretenimento, mas a atividade econômica não pode se dar às custas da saúde pública, da descaracterização residencial do bairro e da perturbação do sossego coletivo.
Como Apoiar o Movimento
A comunidade da Granja Viana já provou que quando se une em prol da preservação ambiental e do ordenamento urbano, conquista vitórias históricas. Agora, essa mesma força comunitária está sendo direcionada para devolver a paz e a tranquilidade às nossas noites.
O movimento elaborou uma pauta de 18 encaminhamentos recomendados, incluindo a instauração de procedimento investigatório pelo Ministério Público, perícias acústicas oficiais com análise de subgraves, criação de um "Mapa do Barulho" na cidade e auditoria de alvarás dos locais reincidentes.
Você também é afetado ou quer se solidarizar com essa causa? Participe!
Sua voz e o seu relato são peças fundamentais para fortalecer esse dossiê comunitário.
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👉 Leia os documentos na íntegra:
AMOGV – Associação de Amigos e Moradores da Granja Viana
